terras de ninguém

Enquanto a empregada dança entre as mesas esfomeadas, fecha-se um negócio importante para a empresa que se mudou recentemente para aquela rua. O barulho de fundo na sala permite manter o sigilo nesta que foi a reunião mais importante do mês, testemunhada por dois cappuccinos, um café, uma meia torrada e um croissant misto.

Lá fora, no banco do jardim mais próximo, há um rapaz que engole em seco enquanto procura as palavras certas para dizer à namorada que o amor por ela, como o viveu, já não o reconhece mais.

O mundo equilibra-se ao seu jeito e, à mesma hora, na praia, há um casal de namorados que troca beijos inocentes atrás das rochas, porque ainda é cedo para contar aos pais.

São as terras de ninguém dos nossos dias. Cafés, bancos de jardim, areais extensos emprestados pelo mar. Lugares neutros em emoções, histórias e vivências. Áreas livres de julgamento. Lembro-me tão bem de quais foram as minhas, até então. E amanhã, quem sabe, nascerá uma mais.

Curiosas, estas terras de ninguém. Tão discretas e tão secretas, são perfeitas neste papel de se manterem iguais a si mesmas, dias a fio, de forma a que quem passa não desconfie sequer que algo de importante, para um outro alguém, passou um dia por ali.

De repente, aquele café, aquela mesa onde me sento há anos, faz-me pensar de quem será ele/ela terra de ninguém? Quantos apertos de mão já terá testemunhado? Quantos negócios já terá selado? Quantos carrosséis de emoções já terá alimentado?

E o mesmo acontecerá no caso daquele outro café, que nunca me atraiu e onde nunca entrei. Ou no banco de jardim onde nunca me sentei. Ou em tantos outros pedaços de chão neutro que nunca sequer reparei. Quem sabe não são eles as vossas terras de ninguém.

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