o presente

Já lá vão 11 dias desde que completei as minhas 30 primaveras. Ou invernos, se quisermos algum rigor. E foram precisos 11 dias para que me apercebesse como me sentia em relação a esse número simpático. Há 3 anos rabisquei num guardanapo 10 coisas que gostava de “conquistar” para mim até chegar aos 30. Hoje, o guardanapo sorriu para mim. E segundos depois eu sorri de volta ao perceber que deixei apenas uma por cumprir. Espero conseguir manter as outras 9 comigo uns 30 anos mais. O meu corpo ia agradecer. Especialmente na parte que diz “Dormir mais. Mesmo.”

E aí têm, num parágrafo apenas consegui mergulhar no passado e emergir no futuro. Há pouco, enquanto os meus dedos se entretinham nas teclas do piano, dei por mim a pensar quão ténue é este “equilíbrio” de viver, sentir e aproveitar o momento presente sem, no entanto, deixar esmorecer a vontade de fazer planos para o futuro? Quanto tempo estarei eu a roubar ao presente para planear o que ainda não chegou? Assim sem grandes modéstias eu diria: bastante. Essa sou eu. Eu e o hobby preferido do meu cérebro: planear, imaginar, construir. Não nos condeno. Somos otimistas chapados por defeito. E não temos muito talento para estar parados, ou para esperar que a vida aconteça. Adoramos surpresas, claro. Mas nos intervalos gostamos de nos manter ocupados a tentar ser um pouco melhor, viver um pouco melhor, fazer um pouco melhor. Às vezes não apetece, é verdade. Às vezes não queríamos sentir que depende tanto de nós. Ser adulto é para gente grande, e às vezes só queríamos ser pequeninos outra vez. Mas temos este pressentimento que não saberíamos ser de outra forma. Ainda assim, sentimos que esse será o nosso grande desafio, talvez maior que os 10 que o guardanapo guardou: fazer mais pausas no presente. Só estar. Só ser. Só sentir. “Regar as Pausas”, como ouvimos recentemente de alguém que tanto nos inspira. Mais do que uma vez ao dia, se possível. Esse será, sem dúvida, um bom presente para estes e para os próximos 30. E o maior dos desafios.

A parte boa: não estamos sozinhos. Temos na nossa vida pessoas lindas (e um Buddha orelhudo) que nos devolvem o presente e nos ajudam a regar as pausas em cada (re)encontro. Obrigada pessoas lindas. Têm sido 30 invernos muito quentinhos e felizes.

Até breve,
Diana Bocejo
e os seus sweet 30 (mas não tão sweet como os 29 porque entretanto devo ter batido com a cabeça e decidi começar a tomar café SEM açúcar)

moção de censura aos finais necessários

Tenho que começar este texto admitindo que sou uma romântica. Como é possível não gostar de uma bonita história de amor?
Mas é verdade que, acima de tudo, gosto de uma boa história. Admiro o talento de quem consegue passar uma mensagem e acordar sentimentos tantas vezes adormecidos na rotina do dia-a-dia. Este filme, esta história, foram, para mim, um desses despertadores barulhentos, determinados, impiedosos.

Apresentou-se com uma boa história e, como se não bastasse, com uma bonita história de amor. E contou-a e cantou-a em duas línguas bem diferentes mas com tanto potencial quando se unem: a representação e a música. Não é preciso muito tempo de filme para nos apaixonarmos. Eu caí logo, feito amadora. Mais uma cena, mais uma música, e eu ali, colada, encantada.

Até que chega o momento em que sentes que te vão tirar o tapete. Não queres. Resistes. Questionas. E ficas zangada e rabugenta. Não por te terem tirado o tapete, mas por saberes que, muito provavelmente, uma grande parte da beleza da história vai ser esse golpe que acabaste de levar. Esse golpe que não te vai deixar esquecê-la, que não te vai deixar esquecer a forma como ela te fez sentir.

Sou uma romântica, sim. E rais parta que bem queria um final feliz. Mas, citando a parede de um café onde uma grande amiga costuma ir: “há os finais felizes, e há os finais necessários”.

Em resumo, grande filme. Grande banda sonora.
Enquanto decidem se tenho razão, vou só ficar aqui zangada e rabugenta mais um bocadinho por me terem tirado o final feliz de hoje.

sob o sol de monsanto

 

Monsanto faz-se anunciar a uns km’s de distância, pela posição elevada que ocupa no pódio do relevo nacional. Seu é também o pódio da “aldeia mais portuguesa de Portugal”, conquistado em 1938. Curioso que nesta aldeia tão portuguesa seja o sotaque vizinho espanhol aquele que sobressai nas ruas quase nada agitadas. “Eles gostam muito de vir cá. Principalmente nesta altura, que também é feriado em Espanha.”, desabafa o dono de um dos poucos cafés com a porta aberta naquela sexta-feira, véspera de feriado. Pouco passava das 16h daquele 7.º dia de Dezembro quando chegámos à aldeia, uma das 12 históricas de Portugal.

O sol não se acanhava, iluminando os enormes pedregulhos de granito que caracterizam a paisagem e dão fama à aldeia. Entre eles, as casas de pedra incrivelmente preservadas – e algumas já claramente renovadas – não deixavam o quadro ficar mal. Ao vaguear pelas ruas na direção do castelo, era possível testemunhar réstias de vida humana, que nos garantiam que aquela era ainda a residência diária de alguém. Três peças de roupa a secar no estendal, uma ou outra decoração de Natal pendurada na porta de entrada, e uma cozinha em movimento, denunciada pelo cheiro que escapava pela janela entreaberta.

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Quando, por fim, entrámos no castelo dos Templários, já o sol se despedia. A responsabilidade poderá ser repartida pela vista magnífica que se revelava no par de miradouros com que nos cruzámos pelo caminho (Penedo do Pé Calvo e um outro que não sei se algum dia foi batizado). Sem tempo para nos perdermos nos recantos daquele pedaço de história, deixámo-nos ficar por ali, abrigados pelas muralhas para que o vento noturno não nos impedisse de contemplar um pôr-do-sol digno de fazer parar o tempo.

  

Regressámos ao centro da aldeia com a certeza que queríamos voltar ao seu ponto mais alto. O silêncio foi o nosso fiel companheiro nesta caminhada de regresso. Noite feita, a aldeia parecia deserta. A exceção era apenas a Taverna Lusitana, que vivia por aquela hora um clima de festa. Demasiado entusiasmo, contudo, para a tranquilidade que procurávamos para aquela noite. Seguimos, por isso, os trilhos do silêncio, e demos por nós a jantar na “Adega Típica O Cruzeiro”, um dos poucos restaurantes que se mantém como opção para os visitantes da aldeia.

Eram umas estranhas 21h quando regressámos ao alojamento local e vingámos o cansaço das últimas semanas, o corpo pesado atirado para a cama de madeira e um saco de biscoitos locais entregue à mesa de cabeceira, enquanto espera para ser estreado.

8 de dezembro. Feriado para todos menos para o Sol, que decidiu brilhar com toda a intensidade disponível naquele ainda dia de outono. Depois de um acordar bem molengado, batemos à porta do posto de turismo já a manhã ia a meio. De lá saímos com a missão de percorrer o trilho que se entrecruza pelas ruelas da aldeia, o PR5. Antes, uma demora inesperada por uma loja de artesanato local, de onde saímos com a promessa de voltar para buscar a marafona acabada de comprar, e com um toma-lá-dá-cá de experiências de viagem, de fotografia, de vídeo e de vida. Um dia o talento do Rui ainda vai dar que falar.

O PR5 levou-nos para o meio das árvores incontinentes de bolotas, para caminhos ocupados por silvas e arbustos, e para outras perspetivas sobre a aldeia que tínhamos escolhido como destino. O caminho incerto deste trilho aparentemente pouco percorrido levou-nos a escolher a calçada romana que compõe parte do GR12 para regressar ao centro da aldeia, ao som das estaladiças folhas de outono que coloriam a paisagem. Foi o melhor dos dois mundos – ou, diremos assim, dos dois trilhos.

  

Foi com as pernas doridas daquela longa subida final e a barriga a gritar por alimento que suspirámos ao descobrir um mercado de natal exclusivo daquele fim-de-semana. Benditos espanhóis que encheram as ruas daquele sábado solarengo e motivaram os locais a expor nas mesas o que de melhor se fazia e cozinhava por ali. Tudo isto ao som da voz e da guitarra de um (suposto) irlandês, que entoava clássicos salpicados com temas de natal.

A esplanada da Taverna Lusitana já antes tinha chamado por nós. Fortes, resistimos-lhe até ao momento ideal – aquele fim de almoço, envolvido por um sol quente, as pernas a pedir descanso e os livros na mão, ansiosos por serem a companhia das horas seguintes. Por ali ficámos, alapados na melhor mesa da esplanada, com uma vista imprópria para quem ambicionava concentrar-se na leitura. Nada, repito, nada, nos faria sair dali, que não a vontade de repetir o pôr do sol na melhor janela da aldeia – o castelo.

Seguindo as indicações que nos restavam do PR5, chegámos ao castelo a tempo de escolher o ponto mais alto para nos despedirmos daquele sábado quente e maravilhoso. Até o vento colaborou, deixando-se ficar por casa. E foi ali, nesse mesmo ponto, que assistimos ao acender das luzes e ao reaparecer dos contornos da aldeia por entre a escuridão e a quietude da noite. O silêncio, de novo. A perfeita combinação do silêncio e da natureza. Não podíamos imaginar melhor forma de nos despedir de Monsanto. Foi com essa mesma imagem e serenidade que vimos a aldeia desaparecer no retrovisor do carro, na manhã seguinte. Faltou só trazer uma daquelas pedras ao estilo Stonehenge para substituir o pisa-papéis lá de casa. Fica para o nosso reencontro, Monsanto.

    
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uma curiosidade sobre as marafonas…
“Há duas crenças locais acerca dos poderes destas bonecas: uma primeira, que faz delas amuletos protectores contra tempestades, e uma segunda, enquanto objecto supersticioso para dar boa fortuna às mulheres no momento de engravidarem.”

 

Fotografias da autoria de:
Diana Lopes
Pedro Santos

um ano com a leonor

Minha pequena Leonor,
Escrevo-te no rescaldo de um dia muito especial: o teu primeiro aniversário.
Foi um fim de tarde de emoções, e a tua casa encheu-se de pessoas que gostam muito de ti. Deves estar a perguntar-te como é que num ano apenas conseguiste que tanta gente gostasse assim tanto de ti. É fácil. Em primeiro lugar, tens as bochechas mais apetecíveis do mundo. Segundo, a tua gargalhada sonora derrete qualquer um. Terceiro, mas não menos importante, és filha da tua mãe. O que faz com que as duas primeiras razões sejam muito provavelmente herança dela. Isso, e essa alegria tão genuína que vive dentro de ti. Eu sei, o aniversário é teu, e aqui estou eu a falar dela outra vez. Isto um dia passa-me. Mas hoje, não consigo não o fazer. Sabes, há pessoas incríveis, e depois há a tua mãe. Não porque preparou a tua festa com todos os detalhes. Não porque cozinhou coisas boas para nos manter de barriga cheia enquanto tu te babavas para nós. Isso são coisas que as mães fazem. A tua mãe é incrível porque só tem uma resposta dentro dela: amor. E eu já o sabia, mas hoje Leonor, hoje foi tão evidente. A tua mãe coloca amor em tudo. Nos petiscos que cobrem a mesa, no novo cantinho da sala, na cápsula do tempo que preparou a pensar em ti, nas palavras, nas atitudes. A vida é como as frutas novas que tu tens provado neste último ano: às vezes muito doce, outras vezes bem amarga. Há momentos que queremos provar muitas vezes, outros aos quais fazemos caretas e só queremos que acabem depressa. Alguns deles apanham-nos de surpresa, quando nem sabemos que careta usar. Neste último ano, deste à tua mãe momentos muito docinhos, a que ela respondeu com muito amor. Era a resposta inevitável. Mas a vida, malandra, deu a provar à tua mãe algumas frutas bem amargas. E ela fez caretas, tal como tu, só que não tão fofas. Mas sabes como é que ela respondeu depois? Da forma mais difícil: com amor. Com o amor mais forte que eu já vi nela. Um amor tão forte que, depois destes anos de amizade, ainda me conseguiu surpreender. E emocionar. Eu sabia que ela tinha um coração gigante, mas, aqui entre nós, tu fizeste com que ele se superasse, com que ele não tivesse limites mais. Tudo isto num ano apenas. Estou seriamente desconfiada que nasceste com super-poderes.

Parabéns, minha querida Leonor. E obrigada, de coração. Foste uma grande parceira de equipa nesta época que passou. Seguimos juntas, sempre. Sei que tenho em ti a melhor aliada para encher o prato da tua mãe com as frutas mais docinhas do quintal. Imagina quando conseguires trepar às árvores. Ela que se prepare.

Um abraço apertadinho,
Diana

365 razões para (não) fazer um 365

O mundo é povoado por loucos. Eu incluída. Cada louco com a sua loucura, cada tolo com a sua mania – ou qualquer outra expressão que possa encaixar aqui – o mundo lá vai sobrevivendo, louco, também ele, por não se cansar de andar às voltinhas. Acontece, por vezes, que pessoas loucas com gostos semelhantes tenham ideias ainda mais loucas, contagiando outras que não ambicionavam níveis mais elevados de loucura. Sim, isto vai ficar pessoal. A tragédia aconteceu no dia 1 de Janeiro de 2017 quando um grupo de amigos loucos – entre outras coisas, por fotografia – me aliciaram a fazer um 365. O conceito, inventado por um louco com muito tempo livre, era simples: tirar uma fotografia diferente por dia. Eu, que gosto de um bom desafio, agarrei-me aos meus escassos níveis de sensatez com todas as forças, e respondi “sim sim, que ótima ideia, não contem comigo”. Segue-se um bombardeamento de bons motivos de que eu me estaria a privar ao negar-me a esta ideia incrível. 29 anos de auto-conhecimento mantiveram-me firme na certeza que aquilo não era para mim: “Malta, isso é um compromisso muito grande. E eu sei que não vou conseguir cumprir, por isso não quero começar algo para depois ficar a meio. Têm todo o meu apoio, mas fico na bancada.” Só que não. Uns dias depois, uma amiga com ainda menos tempo livre que eu, liga-me com aquele argumento irrefutável “anda lá, se eu consigo, tu consegues.” Lá se foram 29 anos de auto-conhecimento ao ar num telefonema só.

Imaginem o que é começar o ano já com uma coisa para fazer por dia. É o que parece: péssima ideia. Mesmo que essa coisa seja algo que até gostam de fazer. Definitivamente, o sentido de obrigação estraga o clima. E depois, sei lá, a vida acontece. O mais normal é que haja um dia, ou vários, em que simplesmente não vai dar. Ou simplesmente não me apetece. Mas vá, se fosse fácil não era um desafio.

Melhor que isso, é que a imaginação dos loucos não pára, e a experiência foi ganhando toda uma outra complexidade. E regras. Ora vejam: tirar uma foto por dia – certo – e em cada semana, uma das fotos tem que responder a um desafio previamente definido por outro louco qualquer (disponível on-line aqui). Só assim já dá para ficar cansado. E que tal se, em cada um dos meses, uma das fotos tivesse que ser em “dose dupla”, mostrando uma perspectiva diferente? Fácil. Agora respirem, não se pode repetir o mesmo sujeito nas fotos mais do que 10 vezes. 10 vezes em 365 dias dá muita diluição. Mas não desanimem: nos dias em que não nos sentirmos inspirados, podemos ir buscar fotos ao “baú”. 10 no máximo, para o ano todo. Claro que eu usei as 10. E claro que não chegaram para os dias em que, por alguma razão, não deu. De resto, cumpri quase todas as regras. Na verdade, acho que falhei apenas a mais importante – tirar uma foto por dia. Detalhes. Aqui me confesso, por isso, admitindo que, em alguns dias, tirei mais do que uma fotografia e fui fazendo render para a semana. Já estou a rezar o pai nosso três vezes por serão.

Nem tudo à minha volta é fotografável para mim. E há semanas e semanas, vocês sabem. Mas enfim, olhando para tudo o resto, teria todas as razões para estar muito satisfeita com o meu desempenho. Há excepção de um último “detalhe”. Era suposto isto ter acabado a 31 de Dezembro de 2017, não a 3 de Dezembro de 2018. Como eu disse, detalhes. Vendo bem, só falhei o dia e o ano, o mês foi em cheio. Confirmei, com isso, o meu optimismo incurável – acreditei, até poucos dias antes, que ia conseguir acabar a obra a tempo. Até ao momento em que percebi que não. E aí, enfim, permiti-me um desleixo compensatório, como quando passamos um ano sem comer ferrero rocher e de repente devoramos uma caixa inteira porque, enfim, é Natal, e é um luxo sazonal que não podemos desperdiçar. Diria que 80% das fotografias são de facto de 2017. Em relação aos outros 20%, deste ano, podemos pensar nelas, de certa forma, como fruto das experiências desse ano também. Afinal, quanto do que somos hoje reflecte as experiências vividas nos anos anteriores? Não sei se me safo desta com reflexões filosóficas, mas fica a tentativa.

Regras à parte, estou orgulhosa de mim. Não tanto pela parte técnica – apesar de ter aprendido algumas coisas novas, especialmente com as ideias mirabolantes dos desafios semanais, sinto que muito disso se perderá por falta de prática – mas sim por algumas das fotografias que consegui sacar, e, mais do que tudo, por ter conseguido levar isto até ao fim. Ainda que fora do prazo de validade, mas podem ver na mesma que não vos vai deixar doentes da barriga. Se precisava de um 365 para sacar estas fotos? Acho que não. Fotografia é, para mim, uma forma de me expressar, e, tal como quando escrevo, a inspiração não vem todos os dias, e são mais os dias em que tende a não vir. Nunca a frase “aproveita o momento” fez tanto sentido como quando o tema é este. Contudo, tenho que admitir que o 365 me fez olhar para o que me rodeia com olhos mais curiosos que o habitual, qual predador à procura de alimento. Felizmente, foi só durante 365 dias. É que eu nasci para ser distraída. Ou com atenção selectiva, se preferirem.

Partilho convosco o resultado deste desafio louco, com a certeza profunda que não me apanham noutro. Mas não desincentivo ninguém, desta vez fico é MESMO na bancada. Um avé aos meus companheiros de equipa que lograram este feito a tempo e horas. Um dia vou ser disciplinada assim. Ou talvez não. Muito provavelmente não. Mas devo à vossa loucura este reviver de 80% – mais a teoria filosófica e pedaços do baú – do meu ano de 2017, ou, pelo menos, de algumas das imagens e momentos que ficaram para contar a história.

Vemo-nos por aí, nas próximas fotografias. Rebeldes, anárquicas, sentidas.
Bons disparos,
Diana Flores

(fotos com melhor qualidade, legendas e jogos do galo para todos os gostos disponíveis aqui)

uma história sobre (i)mortalidade

São tantas as teorias sobre a criação do universo, que eu às tantas nem sei a quem devo agradecer. Mas dou por mim a fazê-lo umas quantas vezes. O mundo é um lugar estranho e muitas vezes cruel, mas o mundo é também bonito, perfeito, inspirador. E não é preciso olhar com muita atenção ou viajar para locais exóticos. Na verdade, podem viajar apenas para a sala de cinema mais próxima e assistir a Bohemian Rhapsody.

Freddie Mercury não era perfeito, mas trazia a perfeição dentro dele. Quanta vida cabe num ser humano? Quanta ousadia e coragem precisa um homem para não ser outra coisa que não autêntico e genuíno? Serão as as angústias dos génios proporcionais ao seu talento? Ou infinitamente maiores? Quão magnífico é este poder (e responsabilidade) que temos de podermos ser quem quisermos, de nos podermos construir e destruir, ser o melhor e o pior, apenas com as nossas ideias e (boas ou más) decisões? Quão mágico e assustador é saber que uma parte do que somos será produto das pessoas com quem mais convivemos? Todas estas perguntas cabem nesta bonita homenagem ao Freddie, neste incrível hino aos Queen.

Aqueles quatro eram a fórmula perfeita. A irreverência máxima. Aqueles quatro simbolizam a liberdade, a coragem, a beleza da criação. Aqueles quatro são a verdadeira definição de arte. E que sortuda que eu me sinto por todas as vezes que a música deles me inspirou, na rádio ou num CD que nunca envelhece, ao vivo no meio de uma multidão, e, agora, num filme brilhante, com espaço para todas as emoções e para muita e boa música.
Um filme que, de uma forma tão subtil, coloca a nu o quão mortais somos nós, humanos, génios incluídos, e, na outra face, quanta imortalidade cabe nas nossas ações e na pegada que elas definem nesta casa que habitamos.

Obrigada Queen. Obrigada Brian May, Freddie Mercury, John Deacon e Roger Taylor. I want you to live forever.
Obrigada a todos os que fazem arte. O mundo fica muito mais bonito sempre que vocês se expressam, em qualquer uma das sete ou sete mil formas que inventam para o fazer. Não vos desejo menos que a imortalidade.

a minha amiga Teresa

A Bia foi embora há três semanas, e foram precisas três semanas para que eu conseguisse escrever sobre ela. Dito assim, até parece que a Bia é uma pessoa complicada. Mas, surpreendam-se, ela está exatamente no polo oposto. A Bia é simples, e é simples fazê-la feliz. A vida é que gosta de ser complicada, mesmo para pessoas simples assim. Por exemplo, a vida teima em fazer-nos trabalhar para ter sustento. A Bia, se pudesse, sustentava-se com ócio e boas sestas. Não sendo possível, ela não só trabalha, como dá um brilharete em tudo onde marca presença – quem sabe assim a vida pense duas vezes antes de quebrar utopias.

Com a Bia podes ter qualquer tipo de conversa – desde o mais recente mexerico até ao flagelo mundial que mais te preocupa. Ela vai ouvir-te, com uma empatia genuína e sem grandes preconceitos, vai mostrar-te outras perspetivas com uma gentileza que te desarma, e é capaz de ainda ter uma boa história para contar sobre o tema. Ver a Bia a discutir a sério com alguém é, na verdade, mais raro que um eclipse lunar. Posso adiantar-te, por isso, que se algum dia tu e a Bia discutirem, é altamente provável que ela tenha razão – mais vale poupares energias.

A Bia compreende o meu humor. Do mais rasca ao mais elaborado, transitando de forma exemplar de um elevado nível de inteligência e atenção para a banalidade do ridículo, da parvoíce de trazer por casa. E se o humor for negro, aí então é que ela sorri. Desenganem-se se pensam que há ponta de maldade nisso – é só a Bia a ser feliz, no seu jeito descontraído, com as coisas boas e simples da vida.

A Bia faz-me falta. Se vocês têm uma Bia assim na vossa vida – se não têm recomendo seriamente que encontrem uma – vão perceber do que falo. O problema é que eu não posso ficar zangada com a vida, porque a Bia foi ser (mais) feliz. A Bia foi ter com o mar, com o verde mais verde do mundo, e com o amor na sua forma mais autêntica: a família. A Bia foi para onde sempre sentiu ser a sua casa, e é uma casa linda, há que dizer. Nestas condições, não dá margem para barafustar. É muito bonito isto de dizerem que o mundo não tem fronteiras, mas eu não posso ir visistá-la a pé. Já para não falar que o teletransporte devia ter sido inventado muito antes dos drones. Estas pessoas não conhecem o conceito de prioridades. Talvez um dia a Bia lhes conte uma história. Mas sem pressa Bia, sem prazos. Prazos são sinónimo de procrastinação, e procrastinação causa um certo nível de ansiedade. E ansiedade não rima com simplicidade, por isso não é coisa que se ofereça à Bia. No entanto, na falta de outras ideias para o Natal, embrulhem e tentem a sorte – na pior das hipóteses, a Bia do Futuro resolve.

2 anos de buddha

Olá pessoas.
Hoje faço dois anos (já o donuts amarelo que recebi de prenda não vai poder dizer o mesmo, paz à sua alma agora sem apito).

Dois anos em vida de cão dá para ganhar algum estatuto. A minha personalidade está apuradíssima, daquelas de se abanar a cauda. Ele e Ela, por seu lado, continuam tão apaixonados por mim como no dia em que me foram buscar, de modo que a vida vai-me correndo bem.

Acumulei algumas cãoquistas ao longo deste último ano. A primeira secção é a dos petiscos. Finalmente posso dizer que conheço pelo menos 1/3 da roda alimentar: já experimentei legumes cozidos, frutas variadas e arroz, isto sem contar com as amostras de pecados que alguém vai largando perante a minha resiliência na hora da refeição dos outros. O barulho de um pacote de bolachas a ser aberto é inconfundível, por exemplo. Mas nem tudo são caprichos. Também como sopa. Menos quando a servem muito quente, aí fico só a olhar e a ladrar para ela. Quem sabe sob pressão arrefeça mais rápido.

Tenho também feito progressos notáveis na minha forma de comunicar. Já não ladro só. Agora faço tentativas de palavras, com diferentes entoações, e alguns rosnares pelo meio. Pela empatia, tudo.

Encontrei, entretanto, uma bola perfeita para mim. Todos achavam que a nossa relação não ia durar mais que dois dias. Mas ela tem um feitio de gancho. Não consigo furá-la por mais tente. Decidi, por isso, adotá-la, tal como eles fizeram comigo. Dizem que o karma não dorme, talvez assim ele me recompense e eu ganhe a montra final dos biscoitos.

Cresci um pedaço nestes meses, o que me complicou seriamente a arte do disfarce. 8 em cada 10 vezes que me tento esconder no meio de uma colcha ou manta acabo por ser descoberto por deixar sempre algo de fora. Estou a pensar pedir à Safira umas tutoriais sobre a técnica da invisibilidade. Sei bem que ela a domina, porque muitas vezes cãosigo cheirá-la mas não encontro o raio da gata em lado nenhum. Acho que podemos chegar a um acordo vantajoso para ambas as patas. Ela dá-me umas aulas, e em troca eu deixo-a fazer contacto direto para o meu terraço uma vez por semana durante 15 segundos. Depois disso, sou obrigado a ladrar, está na minha natureza canina.

Nos meus passeios ao ar livre, já sobrevivi a amontoados de água que parecem super apelativos para humanos mas nada tentadores para mim. Por outro lado, para que não se diga por aí que sou avesso a novas experiências, levei a cabo, muito recentemente, o meu primeiro xixi de pata alçada. A árvore não se queixou e eu não fiquei todo salpicado, pelo que considero que foi uma experiência bem sucedida. Cãotudo, não fiquei fã. Demasiada exposição ao nível dos países baixos para um cão tímido como eu.

Por último, mas não menos importante, o mais novo mudou-se cá para casa há quase dois meses. Ainda estou a aprender a partilhar o sofá com mais um, mas pelo menos ele alinha em corridas circulares por tempo indeterminado entre a cozinha e sala. Estava a baixar o meu nível de desempenho cardiovascular à custa daqueles dois velhotes, nada como sangue novo para retomar recordes. E a verdade é que eu nunca fui muito bom nisto das saudades, por isso tenho especial apreço por este conceito de objeto presente.

Enfim, contemplando a primeira foto minha de que há registo (à esquerda), parece-me inquestionável concluir que a idade me está a fazer bem (a outra esquerda). O segredo? Não posso partilhar. Mas isto de cãoviver com pessoas que gostam tanto tanto tanto de mim que às vezes até dá comichão deve ter o seu quê de rejuvenescedor.

olá, outono

Ele chegou.
Em tons de amarelo e castanho, e em todos os outros que no meio deles cabem. As folhas dançam, em espiral, sob o comando do vento. Quando ele acalma, elas descansam num tapete gigante que cobre o chão. Podia deitar-me nesse tapete o resto do dia, ouvi-las a ceder, estaladiças, ao peso de um corpo relaxado e feliz. O sol continua quente, para não me deixar sentir saudades do verão. Mal tu sabes, Outono, que é contigo que eu suspiro.

2018 tem sido um ano especialmente intenso para pessoas a quem eu quero muito e, consequentemente, para mim. Quando digo intenso, falo do melhor e do pior. Momentos inesquecíveis, que marcam uma vida, e, na mesma leva, surpresas tão amargas, tão injustas, tão difíceis de digerir. Hoje, dei por mim a traduzir em palavras uma das mais bonitas metáforas que descobri no Outono: consigamos nós ter a mestria de perceber e preservar o que realmente importa, e a coragem de deixar partir as folhas caducas, as surpresas amargas, as pessoas que já não querem ficar ou que já não queremos por perto, as memórias que nos amarram e não deixam espaço para que outras possam surgir. Hoje, se pudesse, eu dava um Outono a cada uma dessas pessoas a quem quero tanto. Ou, porque não, um Outono a todo o mundo. Uma oportunidade para recomeçar, para recriar e para nos recriarmos, para reconstruir, para nos reinventarmos com as novas folhas que hão-de nascer e com a certeza que, por mais duro que seja o inverno, haverá sempre uma nova primavera à espreita.

há dias para

Há dias para amar
e dias para resmungar

dias para receber colinho
e dias para amuar com beicinho

dias para a resiliência
e aqueles dias, em que os dois, somos só impaciência

dias tangentes à perfeição
e aqueles outros, malditos, onde até banalidades são matéria-prima para discussão.

Em todos somos, por inteiro,
o nosso melhor e pior
o nosso mais verdadeiro.

Há dias e dias, é certo
mas todos terminam assim
com um abraço apertado,
orgulho arrumado para o lado,
e a certeza que, no fim,
não há outro lugar
onde queiramos estar
que não este:
lado a lado.

(que nunca nos falte o abraço fácil em cada um dos dias difíceis ♡)